A maioria das pessoas contrata um advogado meia dúzia de vezes na vida — e quase sempre num momento difícil: um divórcio, uma herança, uma dívida, um problema com documentos num país estrangeiro. Escolhe-se sob pressão, sem experiência anterior, e muitas vezes com base no único critério disponível: a recomendação de um conhecido.
A recomendação é um bom ponto de partida. Mas há perguntas que qualquer pessoa pode — e deve — fazer na primeira conversa, e que dizem muito sobre se aquele profissional é o certo para o seu caso. Nenhuma delas exige saber Direito.

"Já acompanhou casos como o meu?"
A pergunta mais óbvia é também a mais importante. O Direito é vasto, e o advogado excelente em matéria empresarial pode não ser a escolha certa para uma regulação de responsabilidades parentais — e vice-versa.
Atenção à especificidade da resposta. "Sim, trato de tudo um pouco" é uma resposta diferente de uma descrição concreta do tipo de casos, dos contornos habituais e das dificuldades típicas. Não precisa de nomes nem de detalhes de clientes (que o sigilo protege, e bem); precisa de perceber se o terreno lhe é familiar.

Se o seu caso toca dois países — bens, família ou documentos repartidos entre Portugal e o Brasil, por exemplo — a pergunta afina-se: "trabalha com as duas jurisdições, ou vai precisar de recorrer a um colega do outro lado?" Há advogados inscritos num só país e há, por exemplo, advogadas brasileiras em Portugal inscritas nas duas Ordens, que acompanham as duas frentes diretamente. Ambos os modelos podem funcionar; o que importa é saber à partida qual é, porque afeta a coordenação, o custo e os tempos.
"O que é que eu posso esperar, realisticamente?"
Um bom profissional distingue-se tanto pelo que promete como pelo que se recusa a prometer. As regras deontológicas proíbem os advogados de garantir resultados — e por bons motivos: ninguém controla todas as variáveis de um processo.
Desconfie de certezas absolutas na primeira conversa. Valorize, em vez disso, quem lhe apresenta cenários: o que pode correr bem, o que pode correr mal, o que depende de si, o que depende da outra parte, o que depende do tribunal. Essa honestidade na primeira hora é o melhor indicador de honestidade nas seguintes.
"Como vamos comunicar, e com que frequência?"
Grande parte da frustração das pessoas com advogados não vem do resultado — vem do silêncio. Meses sem notícias, chamadas não devolvidas, a sensação de que o processo desapareceu numa gaveta.
Clarifique à partida: quem é o ponto de contacto, por que canal, e com que regularidade pode esperar atualizações — mesmo quando a atualização é "nada se passou, o processo aguarda". Um profissional organizado tem resposta pronta para esta pergunta, porque já pensou nela.

"Como funcionam os honorários?"
Falar de dinheiro na primeira consulta não é falta de educação — é sinal de seriedade dos dois lados. O que interessa não é apenas o valor, mas a estrutura: o que está incluído, o que conta como despesa à parte, o que acontece se o processo se prolongar ou mudar de natureza, e como é formalizado o acordo.
Este artigo não indica valores, porque variam com a complexidade de cada caso. O princípio, esse, é universal: tudo o que ficar claro por escrito no início é um desentendimento que não vai acontecer no fim.

"O que é que precisa de mim?"
A relação com um advogado não é um serviço que se contrata e se espera — é uma colaboração. Os casos correm melhor quando o cliente sabe, desde o início, o que lhe cabe: que documentos reunir, que decisões só ele pode tomar, que informação nunca deve omitir.
Aliás, fica aqui a regra de ouro para a primeira consulta, e para todas as outras: conte tudo, incluindo o que o desfavorece. O advogado está vinculado ao sigilo e só o defende bem com o quadro completo. As surpresas que fazem perder casos raramente vêm da outra parte — vêm do que o próprio cliente guardou para si.
No fim, um critério simples
Depois das perguntas todas, faça a si próprio a única que não se faz em voz alta: saí desta conversa a perceber melhor o meu problema do que quando entrei? Se a resposta for sim, está provavelmente no sítio certo. A clareza é o serviço mais importante que um advogado presta — tudo o resto constrói-se sobre ela.
Este artigo tem carácter informativo e não constitui aconselhamento jurídico. A Dra. Vyvian Avena é advogada brasileira em Portugal, inscrita na Ordem dos Advogados de Portugal e na OAB, com escritórios em Cacilhas, Santa Maria da Feira e Barra Olímpica.


